Encontro Internacional sobre a cidade, o corpo e o som

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Caminhadas > TRAVESSIA < Performance

 

Os contextos pandémico e pós-pandémico vêm impondo às cidades outras dinâmicas, outros sons, outros ecos, outros percursos, outros visitantes humanos e não-humanos. Nestes contextos, os corpos humanos exploram outras zonas de intimidade, reduzem e reconfiguram os seus gestos, passam eventualmente à condição de corpos transmitidos e diferidos.

Durante o confinamento, o encerramento de espaços teatrais e expositivos – bem como, durante o desconfinamento, as limitações para a sua utilização – têm tido consequências penosas nas programações artísticas e efeitos dramáticos nos quotidianos dos seus agentes (artistas, técnicos, programadores, curadores, etc.). Ao mesmo tempo, a desaceleração da vida da cidade (do trânsito, do ritmo nas ruas, do frenesim produtivo e de consumo, etc.) veio contribuir beneficamente para uma diminuição das emissões de CO2. Neste quadro, a cidade – mais concretamente as suas zonas públicas a céu aberto – surgem mais nitidamente como espaços de circulação e de interferência (ou de suspensão de interferência) entre pessoas.

O que aprendemos com a experiência de confinamento e desconfinamento? Em primeiro lugar, que a cidade tem uma densidade flutuante, na medida em que as concentrações populacionais se esvaem quando nos encerramos em casa. Em segundo lugar, que o encontro com o outro (uma das prerrogativas da cidade) pode acontecer em outras escalas que não apenas a dimensão cultural. Em terceiro lugar, que o medo pode ser um sentimento público capaz de fazer implodir as próprias cidades se não for transformado numa força para a vida. Em quarto lugar, que os nossos corpos passaram a outros estados e a outros modos de comunicação.

Como é que, neste processo, os artistas se organizam e se constituem como agentes na cidade? Como é que lidam com o corpo presente e representado? E, ao mesmo tempo, como é que a cidade passou a ser representada? Que cidade é aquela que desejamos?

Este encontro internacional surge assim da necessidade de intensificar o diálogo entre a cidade e a arte, em particular as artes performativas. Este encontro é também o culminar de dois anos de investigação consistente e consolidada no âmbito do projecto TEPe (Technologically Expanded Performance). Ao longo destes dois anos, desenvolvemos atividades com a comunidade com o intuito de promover um diálogo intercultural e transdisciplinar, e proporcionar o encontro com vivências urbanas variadas. Através das diferentes propostas de percursos pela cidade, mapeámos acontecimentos, hoje invisíveis, mas ainda assim presentes: desde “memórias soterradas” a “caminhadas sensoriais”, passando por registos íntimos de confinamento.

O encontro visa partilhar as experiências realizadas com a contribuição de duas equipas: a portuguesa, em Lisboa, e a brasileira, em Fortaleza. Para além de apresentarmos as conclusões das pesquisas realizadas, lançamos esta chamada para apresentações, especialmente destinada a artistas e estudiosos de performance art, historiadores das cidades, antropólogos, urbanistas, geógrafos, estudiosos da escuta e do som, e a todxs aquelxs a quem interessa pensar (e projectar) a vida na cidade.

 

Formatos de participação:

 
= Comunicações ou painéis de comunicações
 
= Performances públicas
 
= Sessões de vídeo-posters
 
= Caminhadas

Temas:

 
  • escutar a cidade. Todas as cidades têm sons e cada cidade comporta diversos perfis sonoros. Quais os níveis de harmonia e os níveis de ruído e quais os critérios de distinção entre uns e outros? Onde fica o silêncio nas cidades?

  • mapas urbanos. Das caminhadas lúdicas às manifestações e “passeatas” de protesto, passando pelos cortejos celebratórios e pelas deambulações exploratórias. Sistemas de (re)mapeamento e de reconhecimento de espaços. A caminhada nas imediações de “estar perdido”.

  • corpo e ressonâncias. Histórias e processos de inscrição das redes urbanas nos corpos dos seus habitantes e vice-versa. O corpo enquanto lugar de ressonância e a cidade como espaço de ressonância dos corpos.

  • camadas sensíveis da cidade. Das micro-histórias das pessoas às experiências sensoriais escondidas (os cheiros da cidade, os paladares disponíveis, as texturas, as cores, a luz e os brilhos, etc.).

  • performar a cidade. Das construções de maquetas às intervenções de arte urbana. Dançar (n)a cidade. Protagonistas e antagonistas citadinos. Equipamentos públicos de treino e de exercício físico.

  • cidadania e alterações climáticas. Da história da cidadania aos desafios contemporâneos. Em que medida é urgente rever o contrato social de modo a introduzir uma cidadania não circunscrita aos direitos dos humanos, capaz de conciliar as cidades com o planeta?

 


As propostas submetidas devem contribuir para aprofundar o entendimento da cidade como um tecido multidimensional que nos afeta e se deixa afetar. Assim, serão valorizadas as apresentações que explicitem propósitos de mudança positiva de experiência na cidade, especificando a que nível opera essa mudança e o que envolve.